“Vivemos uma falsa felicidade”
“Atualmente, as pessoas experimentam uma felicidade que não é real: é distração, é um gozo passageiro e um hedonismo de superfície. Quase diria que se consomem drogas de vários tipos: não só substâncias, como fármacos, álcool, mas espetáculos, concertos, discotecas, compras.” As palavras são do psicólogo Vítor Rodrigues e servem de alerta: “As emoções básicas do ser humano são a tristeza, alegria, aversão, medo, ira e espanto. Se sobreviveram desde a Pré-história até agora é porque têm as suas funções. A tristeza tem a sua função. E quando pensamos na tristeza, verifica-se que há quatro vezes mais depressões entre os escritores do que a população em geral e encontramos pessoas que são tristes e criativas e, curiosamente, por vezes o momento criativo alia sofrimento e alegria, um pouco como as dores de parto.”
“A tristeza é uma forma de introspecção”
Qual é então a função da tristeza? “A tristeza puxa-nos para dentro e interioriza-nos, enquanto a alegria nos leva para fora e conduz à ação. Os momentos de tristeza são muitas vezes momentos de paragem para deitarmos contas à vinda, para pararmos e nos aprofundarmos. Há uma função essencial associada à tristeza.” Sendo assim, a ânsia de felicidade pode ser encarada como uma fuga ao confronto interior : “ há muitas pessoas que fogem a esse confronto como o demónio da cruz, até porque ao fazê-lo encontram dores e problemas a resolver.”
“É uma fonte de criatividade e de mudança”
Mas vale a pena incorremos nesse confronto connosco próprios? Para o psicólogo, a resposta é clara: “muitas vezes a recompensa pode ser muito grande, pois a mudança está do lado dessa interiorização. Da mesma maneira como há emoções que parecem estar mais ligadas à resposta rápida ligada à sobrevivência, como a aversão, o medo e a ira, há emoções que parecem aglutinadas a uma certa paragem para aprender, como a tristeza, que se torna criativa e nos ajuda a crescer. Da mesma moda que a alegria nos acelera, a tristeza trava-nos e mergulham nos na direção do interior. Por isso a tristeza não só não é negativa em si, como é extremamente necessária e produtiva. Não podemos prescindir de estar tristes. Em termos psicológicos, é uma fonte de mudança, de criatividade e de auto-consciência.”
Trate bem a tristeza
As pessoas devem mimar os estados de tristeza até certo ponto: “devem aceitá-los e considerá-los como uma emoção natural que lhes trás alguma coisa”, reforça o psicólogo. E quando nos sentimos tristes sem causa aparente, aproveitarmos para procurar exatamente essa causa que nos parece escapar: “Normalmente a tristeza produz introspecção porque sendo um desconforto nos leva a tentar percebê-lo. Por vezes, a tristeza serve de um aviso para a pessoa procurar o motivo porque alguma coisa está mal com ela. Assim como a tristeza está associada à perda, também está associada à perda de nós próprios.”
“Temos medo de ser contagiados pela tristeza dos outros”
Mas esse não é de forma alguma o discurso vigente, ou não acreditassem as pessoas que estar tristes não é normal. “ Nós vivemos numa sociedade consumista, orientada por imperativos económicos, de apelo ao consumo, e geralmente consome-se mais se as pessoas estiverem naquela alegria meio pateta. Interessa aos grandes meios manter a impulsividade, à qual a tristeza é contrária, do que promover um contacto com as suas verdadeiras necessidades.”
Por outro lado, também fugimos da tristeza dos outros , quase o receio do contágio. “É um pouco como se passava com os leprosos na Idade Média. Por um lado desconfia-se da tristeza, pensa-se que pode conduzir à perda do contacto com a realidade, mas por essa ordem de ideias podemos dizer o mesmo da alegria. Vamos para a discoteca, bebemos, drogamo-nos, no fundo são alegrias falsas, são agitações momentâneas, não são aquela alegria da alma, profunda, que têm a ver com a nossa harmonia interior.”
Uma emoção mais feminina?
As mulheres têm mais facilidade em lidar com a tristeza porque têm socialmente mais permissão para estarem tristes. “Os homens têm direito basicamente a estarem zangados, não tristes ou apaixonados. Por isso o sexo feminino tem mais inteligência emocional porque lhes é permitido viver as emoções. No caso dos homens temos ainda uma herança vetusta que remonta ao tempo das cavernas em que o homem perdia um filho e não podia ficar inativo, porque dai resultava a sobrevivência da mulher e dos outros filhos.”, explica o psicólogo.
Vai um antidepressivo?
Em Portugal, o consumo de anti-depressivos passou, em 2003, de 5 milhões de embalagens para perto dos 6 milhões, em 2006. Venderam-se 19,5 milhões de embalagens em 2003, 20,5 milhões em 2005 e 20,3 milhões em 2006. Nesse ano, a despesa com este tipo de medicamentos foi superior a 240 milhões de euros. Para Vítor Rodrigues, a facilidade com que se parecem tomar anti-depressivos no nosso país tem uma justificação: “Há uma cultura pseudo científica que nos leva a pensar o ser humano como uma máquina biológica que precisa de reparações de vez em quando. Quando uma pessoa se afasta de certas normas, precisa de fármacos para se ‘corrigir’ o humor e ficarmos todos iguais uns aos outros. E então cai-se num certo facilitismo. Os próprios médicos acabam por se deixar guiar pelos imperativos comerciais de alguns interesses e pela ideia vigente de que, se um médico não receita nada é um mau médico, quando por vezes os melhores são mesmo aquele que evitam a medicamentação.”
Quando há motivos para preocupação?
Quanto a tristeza se torna depressão, aí é patológica e negativa. “Nesse caso a pessoa não consegue alternar a tristeza com estados de alegria, a tristeza é a emoção dominante na vida da pessoa, impedindo-a de viver e de estar com os outros. Quando isso acontece deve ser combatida porque se torna um bloqueio na vida, que rouba as reações e conduz à apatia. Mas isso acontece com qualquer outra emoção que, ao ultrapassar doses equilibradas, nos começa a fazer mal.”
Até já!



